Inflação da escrita

Vejo as pessoas ansiosas para escreverem artigos acadêmicos. Ansiosas para baterem metas numéricas: dez ou três artigos por ano? Publicar em espaços que proporcionem maior pontuação. Mas também vejo as mesmas pessoas a dizer: faz tempo que não consigo ler um livro por lazer. Não tenho tempo para dormir, tomar um chope, ver um filme. Será que sobra tempo pra namorar? E pra olhar pra o teto ouvindo música?

Nessa de dizer que precisam urgentemente escrever, nunca falam sobre seus temas, suas indagações, aquilo que lhes inquieta. Escrevem para publicar, não para serem lidos. Eu mesma não tive tempo de ler a monografia dos meus amigos de mestrado. Nem eles a minha. Muito se fala que o homem moderno não é culto, que perdemos o hábito da leitura. Pudera... Ainda somos máquina na era da informação.

Temos que produzir. Pensar é secundário. Divertir-se é secundário. Descansar é secundário. Escrevemos mais que nossa capacidade de ler e digerir. Dedicamos mais horas a escrita do que a leitura. E sem sorver o mundo, vamos escrever sobre o que? Sobre a escrita? Sobre o que já foi dito, apenas milimetricamente modificado? Assim como o silêncio, seria preciso apreciar a ausência da escrita. Nenhum teclado sendo dedilhado. Silêncio. No hay escrita.

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