Português não é difícil, Machado de Assis também não

Eu e minha experiência com livros: infância

Eu sempre gostei muito de ler. Minha história é simples: filha única, pais protetores, o hábito da leitura fazia parte do cotidiano da família. Sozinha no quarto, ler era uma diversão. Durante uma boa parte da minha infância a programação de domingo era ir ao shopping, chegando lá seguir para livraria e ficar por horas. Daí se tem uma coisa que não posso reclamar da criação que meus pais me deram, é do incentivo à leitura.

Na primeira série eu já tinha o meu próprio Dicionário Aurélio, ilustrado pelo Ziraldo. Minha Primeira Enciclopédia Larousse, uma versão fartamente ilustrada e com textos compactos. Assim que o Darcy Ribeiro lançou seu livro voltado para o público infantil, também ilustrado pelo Ziraldo, meu pai não titubeou em me presentear. Aprendi com ele, o Darcy, a desconfiar dos sabidos demais e ter um pé atrás com cientistas que sabem "tudo sobre nada".

Me lembro da minha mãe me corrigir quando eu contei para meu avô que "essa semana terminei de ler Dom Quixote". "Ela leu foi uma versão infato-juvenil". Meu avô ficou mais sossegado, eu ainda tinha chances de ser uma criança normalzinha, apesar das invenciones dos meus pais. Isso deve ter sido quando eu estava na quarta-série.

Na quinta-série descobri a série vagalume, e a capa de Escaravelho do Diabo nunca esmaeceu da minha mente. O enredo, por sua vez, foi-se faz tempo. Se não erro as contas, na sexta-série aconteceu o evento que sempre conto para atestar que eu era uma criança para lá de comportada. Meu pai me deixou de castigo, e como não restava muita coisa para me proibir, me deixou sem o direito de terminar de ler um livro de contos de Machado de Assis. Foi assim que conheci o contista, mais famoso por seus romances, e sua capitu olhos de ressaca. Era ressaca como a do mar de Copacabana ou de cachaça? Na sexta-série, para mim a única possibilidade de acepção da palavra era a do mar agitado. Capitu dos olhos revoltos.

Depois, mudei-me para casa da minha avó e descobri o tesouro: a coleção completinha de Machado de Assis. Um paraíso. Texto originalíssimo, como diria o personagem de Dom Casmurro. Original do tempo do meu avô.


Eu e minha experiência com livros: o aprendizado de uma nova língua

Durante a faculdade fui aprender uma nova língua, inglês. Tive a excelente oportunidade de estudar na Casa de Cultura Britânica, da Ufal. Como material didático, livros da Oxford. E qual era o material de apoio? Clássicos literários da língua inglesa. Mas é claro, adaptados para estudantes. Li Shakespeare e Conan Doyle como se tivessem sido escritos para um britânico de 5 anos de idade. E foi ótimo para me ajudar a entender a lígua.



Eu e minha opinião sobre a adaptação de Machado de Assis publicada pelo MEC

Descrevi um pouco da minha experiência com livros, por ter a recordação de que textos adaptados para o universo infantil, ou simplificados para os que aprendem uma língua, fizeram parte da construção do meu gosto pela leitura. Daí eu me pergunto: por que raios esse estardalhaço pelo MEC ter publicado uma versão de Machado adaptada por uma escritora infanto-juvenil? 

Desde que seja sinalizado, como é o caso da publicação do MEC, não consigo enxergar nenhum problema nessa adaptação e nem nehum fato novo nessa medida. Adaptar livros para uma linguagem contemporânea ou mais simplificada pode ser sim, uma forma de cativar uma pessoa para o hábito da leitura. Uma vez que esse cidadão se tornar um leitor experiente, ele pode, por conta própria, mergulhar no universo dos livros e buscar textos mais complexos ou com linguagem mais rebuscada.

Machado de Assis não escolheu cada uma das palavras de seus livros a toa. Mudar as palavras, cortar partes, inserir notas de rodapé, distorcem a obra original. Mas um autor com uma obra tão primorosa não vai ser destruído por ter sido reapropriado por outras pessoas. Para um leitor costumaz, um texto de Machado de Assis não é um enigma indecifrável, mas para quem apenas começou a se aventurar pelas bibliotecas e livrarias, Machado é sim um tantinho complicado.

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